Publicado em — Capgemini Research Institute for Financial Services · Edição brasileira com análise da Capgemini Brasil

O World Payments Report 2027, do Capgemini Research Institute, mostra que o setor de pagamentos completa uma década de avanço contínuo dos pagamentos digitais, com os pagamentos instantâneos cada vez mais integrados aos ecossistemas comerciais. Mas há uma distância clara entre bancos e clientes: 60% dos bancos priorizaram a inovação em pagamentos entre empresas (B2B) nos últimos três anos, e apenas 32% dos clientes corporativos se dizem satisfeitos com seu banco principal. A pergunta já não é se o dinheiro circula rápido o bastante. As empresas querem mais visibilidade, previsibilidade, controle de liquidez, compliance integrado e conciliação em todo o ciclo dos pagamentos B2B.1 

Pela primeira vez, o setor responde redesenhando o próprio instrumento de pagamento, e não apenas a forma como o dinheiro circula. O relatório chama essa mudança de “dinheiro inteligente acelerado”: a migração cada vez mais rápida para instrumentos como stablecoins, depósitos tokenizados e moeda digital de banco central (CBDC) de atacado, que reúnem transferência de valor, liquidação e regras de negócio em uma única camada.2 

Principais conclusões do World Payments Report 2027

60% → 32%
60% dos bancos priorizaram a inovação em pagamentos B2B nos últimos três anos, mas só 32% dos clientes corporativos estão satisfeitos com seu banco principal
21%
dos bancos já estão escalando ativamente pelo menos um instrumento de dinheiro inteligente acelerado
Quase 60%
das empresas contratariam serviços de stablecoin de provedores não bancários se seus bancos não acompanharem
36%
do volume de pagamentos B2B já passa por provedores não bancários
74%
das empresas descrevem os pagamentos internacionais como lentos, caros e imprevisíveis
4%
do volume global de pagamentos pode passar por stablecoins, depósitos tokenizados e CBDCs até 2030
US$ 4 tri
estão parados, em média, em contas nostro e vostro para sustentar liquidações internacionais
US$ 230 bi
em receitas de pagamentos (cerca de 10% do total do setor) estão expostos à disrupção
Fonte: Capgemini Research Institute for Financial Services, World Payments Report 2027 (2026). Pesquisa Global com Empresas (n=1.110) e Pesquisa com Executivos Bancários (n=300), realizadas entre maio e junho de 2026 em nove mercados.

O que está mudando nos pagamentos B2B

Os pagamentos B2B estão deixando de ser apenas mais rápidos para se tornarem programáveis. Segundo o relatório, o gargalo das empresas não é mais a velocidade da rede: a Swift informa que 90% dos pagamentos internacionais chegam ao banco do destinatário em até uma hora, mas a jornada corporativa completa, da iniciação à confirmação e conciliação, leva em média cerca de 3,5 dias. Autenticação, triagem de compliance, aprovações e conciliação continuam gerando atrasos.

Uma grande empresa típica opera em 14 mercados, mantém 11 relacionamentos bancários e realiza 34% do seu volume B2B em operações internacionais. Por isso, 74% descrevem os pagamentos internacionais como lentos, caros e imprevisíveis, 59% enfrentam pressão em contas a pagar e a receber por prazos mais longos e 55% relatam atrasos de conciliação causados por sistemas legados.3

Três instrumentos de dinheiro inteligente acelerado

O relatório compara os novos instrumentos com os pagamentos instantâneos, que continuam sendo a referência de mercado:

DimensãoPagamentos instantâneosDepósitos tokenizadosStablecoinsCBDCs
EmissorBanco central (via bancos comerciais)Bancos reguladosEntidades privadasBanco central
LastroDepósitos em conta1:1 em depósitos1:1 (ou sobrecolateralizado) em moeda fiduciária ou ativos líquidos de alta qualidade1:1 soberano
AcessoAmplo (varejo e atacado), baseado em contaPermissionado, apenas participantes aprovadosRedes abertas, carteiras autocustodiadas 24/7Instituições elegíveis (atacado); acesso controlado (varejo)
Rendimento para o usuário finalJuros do depósito retidosJuros do depósito retidosPrincipalmente retido pelo emissor, com modelos de repasse surgindoRetornos conservadores, alinhados à política monetária
Prontidão para execução autônomaExige integração específica por banco e por trilhoExecução direta dentro das redes participantesExecução direta em ledgers compartilhadosExecução direta dentro das restrições de política

Fonte: Capgemini Research Institute for Financial Services, World Payments Report 2027 (2026), Figura 3.

Na pesquisa com executivos bancários, os depósitos tokenizados aparecem como a principal prioridade de curto prazo, porque permanecem no balanço do banco e se encaixam na regulação existente. As stablecoins vêm em segundo lugar, pelo potencial de crescimento de receita e pela eficiência em fluxos internacionais. As CBDCs de atacado ficam em terceiro, valorizadas pelo controle de risco e pela liquidação interbancária.

Três forças aceleram a adoção

  1. Regulação. O regime de stablecoins do MiCA, na União Europeia, está em vigor desde julho de 2023; Singapura passou a regular emissores de stablecoins em agosto de 2023; o GENIUS Act foi sancionado nos Estados Unidos em julho de 2025; e a Stablecoins Ordinance de Hong Kong entrou em vigor em agosto de 2025.
  2. Limites da infraestrutura atual. A rede ficou mais rápida, mas o fluxo B2B completo não acompanhou: 64% dos executivos relatam que a integração com ERP e tesouraria continua complexa ou cara, e 57% ainda não têm acesso a status de pagamento, posição de caixa ou preços em tempo real.
  3. Mercado saindo do piloto. A demanda das empresas já pressiona os bancos: quase 60% contratariam serviços de stablecoin de provedores não bancários se seus bancos não acompanharem.

O papel da IA e dos pagamentos programáveis

Segundo o relatório, a IA permite que os bancos operem esses instrumentos em escala, coordenando decisões, controles e execução de forma contínua entre trilhos e volumes de transação. O estudo recomenda um motor de decisão de IA sempre ativo: uma camada que avalia o que a transação precisa (dados, liquidez e condições de liquidação) e o que a governa (compliance, roteamento e risco) para determinar, em tempo real, como e por onde o valor deve se mover.

Como a liquidação desses instrumentos é irrevogável, o compliance precisa ser incorporado à própria execução, e não aplicado depois. O relatório descreve um sistema de defesa em três camadas, com monitoramento de blockchain, monitoramento de transações e monitoramento do ecossistema, orquestradas por IA. Além disso, 70% dos executivos bancários acreditam que os pagamentos instantâneos e o dinheiro inteligente acelerado vão convergir cada vez mais.4

Como os bancos estão se posicionando

O relatório recomenda que o setor siga o exemplo de um pequeno grupo de líderes: apenas 21% dos bancos já estão escalando pelo menos um instrumento de dinheiro inteligente acelerado. 5 Esses líderes estão fazendo escolhas estratégicas sobre como competir no futuro dos pagamentos, e cada posicionamento exige um nível diferente de capacidade, investimento e compromisso:

  1. Participantes “reativos” preservam o acesso dos clientes distribuindo soluções de terceiros, com investimento próprio mínimo. Nenhum dos líderes pretende adotar essa postura, contra 40% dos demais bancos.
  2. Participantes “ofensivos” investem seletivamente em corredores prioritários, segmentos de clientes ou casos de uso em que podem se diferenciar com mais eficiência. É a postura de 67% dos líderes, contra 43% dos demais bancos.
  3. Participantes “transformadores” querem moldar o próprio ecossistema, investindo em infraestrutura compartilhada, padrões técnicos e participação na governança do mercado. É a intenção de 33% dos líderes, contra 17% dos demais bancos.

Todo banco tem diante de si essa mesma escolha, e o importante é fazê-la agora: ficar parado não será uma estratégia vencedora. Os bancos que se moverem primeiro, definindo onde vão atuar, como vão se diferenciar e quais capacidades precisam construir desde já, vão ditar as regras da competição no setor de processamento de pagamentos.

A vantagem dos bancos ainda é real: 71% das empresas preferem um banco a uma fintech para pagamentos tokenizados, com custo e qualidade equivalentes. E os líderes esperam compensar a queda das receitas tradicionais em 15 meses, contra 25 meses para os demais bancos.6

O que isso significa para bancos e empresas brasileiras

Importante: Os números desta página são globais. Esta seção traz a leitura da Capgemini Brasil sobre o que essas conclusões indicam para o mercado brasileiro.

O que o estudo diz sobre a América Latina

  • A América Latina deve crescer 23,8% em transações de pagamento não monetárias (B2B e B2C) entre 2025 e 2026, a segunda maior taxa entre as regiões, atrás apenas da Ásia-Pacífico (24,9%).
  • Entre 2025 e 2030, a projeção para a região é de crescimento anual composto de 18,1%, de 214,4 bilhões para 492,9 bilhões de transações.
  • O relatório cita o Pix, plataforma de pagamentos instantâneos criada pelo Banco Central do Brasil, e o CoDi, do México, como iniciativas que aceleram a transição da região para pagamentos digitais.

A leitura da Capgemini Brasil

Para Daniela Dutra, líder de soluções para banking da Capgemini Brasil, os bancos investiram muito em pagamentos instantâneos, mas isso ainda não se materializou em valor para os clientes corporativos. O dado global de 60% de bancos priorizando inovação B2B contra 32% de empresas satisfeitas traduz essa distância.

  • Receitas sob pressão. O relatório lista a receita de float entre as linhas expostas à disrupção. Segundo Daniela, no Brasil essa pressão já é sentida porque, com o Pix, “o dinheiro não para”. Somada à queda das tarifas, ela leva os bancos a buscar serviços de valor agregado.
  • Principalidade no atacado. Na visão da especialista, as maiores margens dos bancos estão nas operações de atacado. Oferecer ativos tokenizados e outros instrumentos de dinheiro inteligente é uma forma de evitar que a empresa leve parte das operações para outro provedor.
  • Tesouraria com IA. Daniela relata que tesourarias com quem conversa trabalham hoje com liquidação em D+2 ou D+3 e querem chegar a “D mais X”. Combinar IA com depósitos tokenizados, que carregam as próprias regras, permite prever movimentos de caixa com mais rapidez e escala.
  • CBDCs no comércio internacional. Em sua avaliação pessoal, as CBDCs ainda têm papel em acordos entre países, como Brasil e China, porque não exigem escolher a stablecoin privada de uma instituição específica.

Dados: World Payments Report 2027, Capgemini Research Institute (2026). Análises sobre o Brasil: Daniela Dutra, Capgemini Brasil, em entrevista à EXAME (setembro de 2026). As opiniões da especialista não são resultados da pesquisa.

Daniela Dutra analisa o cenário brasileiro

“As principais queixas são previsibilidade no momento da liquidação, status de pagamento e condições de caixa, e a preocupação com fraude e risco que pode acompanhar esse tipo de operação.”

Daniela Dutra, líder de soluções para banking da Capgemini Brasil, à EXAME

“Se for pensar em pagamentos B2B, essa é a próxima fronteira mais clara. Imagina se cada país tiver seu pagamento instantâneo. Uma tecnologia que rege todas é mais fácil de adaptar.”

Daniela Dutra, líder de soluções para banking da Capgemini Brasil, à EXAME

“O Brasil não está como respondente nessa pesquisa, mas, como esse é um mercado extremamente globalizado, as mesmas conclusões já nos dão muita pista. As lições que estão no relatório já fazem parte do nosso roadmap para levar aos clientes.”

Daniela Dutra, líder de soluções para banking da Capgemini Brasil, em entrevista à EXAME

Capgemini na mídia

EXAME · Future of Money ·

60% das empresas estão dispostas a contratar serviços de stablecoins fora de bancos

Reportagem de Ricardo Bomfim sobre o World Payments Report 2027, com entrevista de Daniela Dutra, da Capgemini Brasil.

Metodologia

O World Payments Report 2027 baseia-se em duas fontes primárias, ambas conduzidas entre maio e junho de 2026:

  • Pesquisa Global com Empresas 2026 (Voice of the Payment Industry Survey): executivos seniores de 1.110 grandes empresas, com receita acima de US$ 1 bilhão, distribuídas igualmente entre seguros, manufatura e logística/transporte. Realizada em colaboração com a INJ Partners.
  • Pesquisa Global com Executivos Bancários 2026: 300 executivos bancários pesquisados e mais de 50 entrevistados em profundidade.

Mercados: Austrália, Emirados Árabes Unidos, França, Alemanha, Hong Kong, Países Baixos, Singapura, Reino Unido e Estados Unidos. O Brasil não integrou a amostra.

Líderes e demais bancos: o estudo classifica como líderes os bancos que já escalam ativamente pelo menos um instrumento de dinheiro inteligente acelerado (21% da amostra). Os demais (79%) ainda estão pilotando, avaliando ou não consideram esses instrumentos.

Fonte: Capgemini Research Institute for Financial Services, World Payments Report 2027 (2026).